Quando Caio Júlio César Otaviano faleceu em agosto de 14 d.C., estava com quase setenta e seis anos. Havia sobrevivido a décadas de guerras civis sangrentas, crises gástricas crônicas, conspirações políticas e ao desgaste contínuo de administrar um império que se estendia do litoral atlântico da Península Ibérica às areias do Egito. Contudo, se um padeiro em Roma, um legionário no Reno ou um agricultor no sul da Gália tirasse uma moeda de prata recém-cunhada da bolsa durante os últimos anos do imperador, veria um perfil intocado pelo tempo. O homem gravado no metal ainda exibia maçãs do rosto firmes, pele lisa, testa serena e um penteado característico que o identificava como alguém vigoroso, no início dos trinta anos. Isso não aconteceu por acaso nem por falta de habilidade dos cunhadores. Foi uma estratégia política deliberada e coordenada com rigor ao longo de décadas.

O rosto de um governante de setenta e cinco anos

No fim da vida, Augusto estava visivelmente frágil. Historiadores romanos como Suetônio relatam que o idoso governante usava quatro túnicas, uma capa pesada de lã e faixas grossas enroladas nas pernas para se proteger do frio do inverno. Ele sofria com cáries, cabelos ralos, mancava por causa de uma lesão no quadril e tinha manchas escuras no tronco. Seu corpo carregava as marcas inconfundíveis de um homem que liderou o Estado romano ao longo de mais de quarenta anos de transformações políticas sem precedentes. Mesmo assim, as moedas que saíam da oficina monetária imperial em Lugduno — atual Lyon, na França — por volta de 13 d.C. exibiam um princeps atlético, com queixo firme e pele tão lisa quanto mármore polido.

Para um observador moderno, habituado a ver líderes ganhando cabelos brancos e envelhecendo diante das câmeras de notícia, essa recusa em mostrar o declínio físico parece simples vaidade. No mundo antigo, porém, os retratos monetários seguiam regras completamente diferentes. Além de servir para o comércio e o pagamento de impostos, a moeda funcionava como a principal rede de comunicação em massa de toda a bacia do Mediterrâneo. Pouquíssimos súditos fora da capital viajavam até Roma, e menos ainda tinham a chance de ver o princeps pessoalmente. A imagem na moeda era o único contato visual com a autoridade suprema que garantia sua segurança, assentava veteranos do exército e mantinha as rotas marítimas livres de piratas.

Ao fixar sua imagem em um estado de serena maturidade, Augusto transmitiu uma mensagem clara sobre seu regime. Um governante visivelmente envelhecido sugeria vulnerabilidade, doença e a perspectiva aterrorizante de uma nova guerra civil pela sucessão. Já um rosto imutável sugeria que a paz trazida por Augusto a Roma era igualmente duradoura, imune à ação do tempo e protegida pelos deuses.

Os retratos enrugados da República Romana

Os retratos enrugados da República Romana
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Para entender o quanto o rosto sem idade de Augusto foi radical, basta observar como os romanos retratavam seus governantes antes dele. Durante séculos na República Romana, a maior virtude de um estadista era a gravitas — um senso solene e austero de dever, sabedoria e disciplina republicana. Esse ideal cultural deu origem a um estilo artístico que os historiadores chamam de verismo, derivado da palavra latina verus, que significa verdadeiro. Os retratos republicanos não tentavam embelezar nem rejuvenescer os homens. Pelo contrário: escultores e gravadores exageravam propositalmente cada marca da idade avançada.

O retrato típico de um magistrado republicano do século I a.C. trazia bochechas fundas, papadas sob o queixo, pés de galinha bem marcados ao redor dos olhos cansados, rugas fundas na testa e calvície avançada. Verrugas, narizes tortos e cicatrizes eram exibidos com enorme orgulho. Para os olhos romanos, esses defeitos físicos eram insígnias de honra. Eles provavam que o cidadão havia passado décadas enfrentando o rigor das campanhas militares, o desgaste dos debates no Senado e o fardo abnegado dos cargos públicos. Um rosto jovem em um político despertava profunda desconfiança, pois a juventude era associada à impulsividade, à arrogância e à ambição pessoal que abria caminho para a ditadura.

Quando a casa da moeda romana começou a estampar retratos em peças monetárias, essa tradição verista passou diretamente para o metal. Os magistrados monetários que produziam os denários de prata da República homenageavam seus antepassados retratando-os como patriarcas severos e idosos, com feições de quem nunca havia sorrido na vida. A idade avançada equivalia de forma direta à autoridade legítima e constitucional. Ao romper de propósito com essa tradição secular, Augusto sinalizava que as velhas regras da política romana haviam chegado ao fim.

Júlio César rompe o tabu supremo das moedas

Júlio César rompe o tabu supremo das moedas
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O caminho para o retrato imperial sem idade foi aberto pelo pai adotivo de Otaviano, Júlio César. Ao longo dos cinco séculos da República, colocar o rosto de uma pessoa viva em uma moeda romana era um tabu absoluto. As peças exibiam deuses, deusas, fundadores lendários como Rômulo ou heróis do passado de antigas famílias nobres. Gravar a própria face em uma moeda pública era algo restrito aos reis helenísticos do Egito e da Síria, e os romanos desprezavam a realeza. A monarquia era vista como o maior pecado político na mentalidade romana.

Nos primeiros meses de 44 a.C., o Senado romano concedeu a Júlio César uma honraria inédita: seu retrato poderia figurar nos denários de prata da República enquanto ele ainda estivesse vivo. Os gravadores da oficina de Roma logo começaram a trabalhar, produzindo moedas que mostravam César como um ditador idoso, de pescoço vincado, pomo de adão saltado e calvície disfarçada por uma coroa de louros. Era um retrato realista e verista, mas sua simples presença no dinheiro corrente cruzou uma linha sem retorno. Para muitos senadores, ver o perfil enrugado de César no troco do dia a dia era prova evidente de que o ditador se considerava um rei. Pouco mais de seis semanas após o surgimento das primeiras peças com seu rosto, César foi assassinado nos Idos de Março.

O assassinato não eliminou essa novidade; pelo contrário, transformou a moeda em arma política. Os assassinos de César, Bruto e Cássio, logo cunharam moedas com os próprios perfis para pagar suas legiões, e os aliados de César fizeram o mesmo. O tabu estava desfeito. A partir daquele momento, a guerra civil em Roma não era travada apenas com legiões e frotas de guerra, mas também com cunhos gravados a martelo sobre discos de prata e ouro.

A imagem inicial de Otaviano antes do império

A imagem inicial de Otaviano antes do império
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Quando Caio Otávio, aos dezenove anos, soube que seu tio-avô César o havia adotado em testamento, herdou o nome do ditador, o apoio leal das legiões e uma sentença de morte imediata por parte de facções rivais. O jovem que chegou a Roma para reivindicar a herança ainda não era o governante sereno que o mundo conheceria. Ele era um comandante implacável e cercado por inimigos, e suas primeiras moedas refletem essa luta crua e desesperada pela sobrevivência.

Nas moedas cunhadas entre 43 a.C. e 31 a.C., durante a tensa aliança com Marco Antônio e Marco Lépido no Segundo Triunvirato, Otaviano aparece bem diferente de seus retratos posteriores. Os gravadores o representavam com bochechas encovadas, mandíbula angulosa e lábios finos e cerrados. Em algumas emissões, ele surge com uma barba rala e descuidada. Na sociedade romana, deixar a barba crescer era um antigo sinal de luto e de vingança; Otaviano havia jurado publicamente não fazer a barba até capturar e executar todos os assassinos de Júlio César.

Essas primeiras moedas não tinham o objetivo de transmitir serenidade divina ou beleza clássica. Elas foram feitas para projetar vingança, juventude agressiva e determinação implacável. Falavam a soldados que precisavam ter certeza de que seu chefe militar era perigoso, focado e totalmente dedicado a vingar o ditador assassinado. Eram retratos duros e humanos, marcados pela tensão de um jovem lutando pela vida em uma arena política banhada em sangue.

A virada de Áccio e as moedas da vitória

A virada de Áccio e as moedas da vitória
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Em 31 a.C., na costa ocidental da Grécia, a frota de Otaviano, comandada por Marco Vipsânio Agripa, derrotou as forças navais conjuntas de Marco Antônio e Cleópatra na Batalha de Áccio. Antônio e Cleópatra fugiram para Alexandria, onde cometeram suicídio no ano seguinte. Otaviano tornou-se o senhor absoluto do mundo mediterrâneo. Roma estava finalmente em paz, mas era uma paz nascida do esgotamento total. Um século de guerras civis intermitentes havia dizimado a aristocracia senatorial, arruinado a agricultura itálica e deixado a população sedenta por estabilidade.

Otaviano enfrentava um desafio crucial: como manter o controle militar absoluto sobre o Estado sem parecer um tirano aos moldes de César, que fora esfaqueado por acumular poderes excessivos? A solução foi uma encenação política meticulosa, sustentada ao longo de décadas. Em 27 a.C., em uma sessão solene no Senado, ele devolveu de forma cerimonial o comando do Estado, das leis e das províncias ao Senado e ao povo romano. Em agradecimento por essa suposta restauração da República, o Senado lhe concedeu o título honorífico de Augusto, uma palavra sagrada e solene que significa 'o venerável' ou 'o exaltado'.

A reformulação da imagem do governante exigiu uma mudança visual imediata e profunda. O guerreiro tenso e carrancudo das guerras civis desapareceu das casas da moeda de uma hora para outra. Em seu lugar surgiu uma figura humana inteiramente nova: serena, majestosa e apartada da mortalidade comum. Essa transformação foi celebrada em áureos de ouro e denários de prata com a legenda concisa e marcante Civibus Servatis — 'Pelos cidadãos salvos' —, cercada por uma coroa de carvalho concedida por ter colocado fim ao derramamento de sangue.

A criação de um rosto sem idade em bronze, prata e ouro

A criação de um rosto sem idade em bronze, prata e ouro
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O retrato oficial criado por volta de 27 a.C., frequentemente chamado pelos historiadores da arte de tipo Prima Porta por causa de uma célebre estátua de mármore encontrada ao norte de Roma, foi uma verdadeira aula de propaganda visual. Os artistas responsáveis rejeitaram tanto o realismo imperfeito do verismo republicano quanto a expressividade dramática dos retratos reais helenísticos. Em vez disso, buscaram inspiração quatro séculos antes, na arte clássica de Atenas do século V a.C. — em especial nas esculturas de bronze, equilibradas e de proporções matemáticas, do grego Policleto.

Esse novo retrato augustano encontrou um equilíbrio visual delicado entre traços reconhecíveis e ideais clássicos.

Ele preservou traços físicos suficientes do governante real — o nariz levemente aquilino, a testa larga e as orelhas proeminentes — para que todos o identificassem de imediato. Ao mesmo tempo, qualquer imperfeição humana foi suavizada. A fronte tornou-se serena, sem traços de preocupação ou cólera. Os olhos eram esculpidos amplos e límpidos, com um olhar altivo e confiante. Os lábios exibiam uma expressão calma e controlada, sugerindo perfeito domínio de si.

O detalhe mais importante é que o retrato foi congelado em uma idade biológica ideal: entre os trinta e os trinta e cinco anos. Essa era vista na Antiguidade como a plenitude da vida, o momento exato em que o homem romano reunia o melhor vigor físico e maturidade intelectual. Ao adotar esse modelo clássico e intemporal, Augusto se distanciou dos homens comuns, que envelheciam, adoeciam e morriam. Ele transformou sua figura pública de político mortal em símbolo vivo de uma era de ouro duradoura.

O novo padrão equilibrou traços reconhecíveis e perfeição clássica por meio de três escolhas fundamentais:

  • Manter o formato característico do nariz e das orelhas para que a população o reconhecesse no mesmo instante.
  • Eliminar marcas na testa, pés de galinha e bochechas encovadas para transmitir vitalidade e saúde juvenil.
  • Adotar as proporções harmônicas da escultura clássica grega para evocar uma sensação de ordem divina.

A linguagem oculta no penteado de Augusto

A linguagem oculta no penteado de Augusto
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Para colecionadores e arqueólogos atuais, a maneira mais confiável de reconhecer um retrato oficial de Augusto não é pelo perfil, mas pelo cabelo. No mundo antigo, onde o penteado indicava moda, posição social e religião, o cabelo funcionava como um poderoso meio de comunicação. Os escultores da corte e os mestres de cunhagem criaram um arranjo capilar muito específico e padronizado, que permaneceu quase idêntico nas moedas por mais de quarenta anos.

O penteado imperial traz mechas volumosas e levemente onduladas, cortadas em uma franja alinhada sobre a testa. Bem no centro da fronte, o cabelo se divide em um desenho muito particular: duas mechas se abrem formando o desenho de uma pinça ou garra, enquanto uma terceira se curva para dentro como uma pequena vírgula. Esse arranjo, conhecido na arqueologia clássica pelo termo alemão Zangenfrisur (penteado em pinça), não era um penteado casual feito pela manhã. Era uma assinatura visual inconfundível, tão marcante para um soldado romano quanto a logomarca de uma grande empresa é para nós hoje.

Esse arranjo específico tinha raízes simbólicas profundas. Ele lembrava o cabelo das estátuas gregas de divindades, principalmente Apolo, o deus da luz, da ordem e da civilização, a quem Augusto se associava de perto. Também remetia ao cabelo heroico de Alexandre, o Grande, o lendário conquistador macedônio cujo carisma os líderes romanos sempre buscavam imitar. Quando um cunho monetário era gravado, fosse por um mestre na capital ou por um aprendiz na distante Hispânia, reproduzir com exatidão esse padrão de mechas era indispensável para garantir que o rosto na moeda era, de fato, o do princeps.

A reprodução do retrato imperial pelas oficinas do Mediterrâneo

A reprodução do retrato imperial pelas oficinas do Mediterrâneo
Ilustração do artigo · A reprodução do retrato imperial pelas oficinas do Mediterrâneo

Numa época sem fotografia, internet ou transporte rápido, como um império espalhado por três continentes conseguia manter um retrato monetário uniforme? O processo era surpreendentemente organizado e dependia de uma rede de centros administrativos e modelos de referência espalhados pelas províncias.

Assim que um novo modelo de retrato oficial era aprovado em Roma, artistas da capital esculpiam matrizes tridimensionais em gesso, cera ou mármore. Esses bustos, chamados pelos especialistas de protótipos de retrato, eram enviados por mensageiros imperiais às principais sedes administrativas e capitais de província por todo o Mediterrâneo. Com base nesses modelos, os artesãos das oficinas regionais abriam os cunhos de trabalho. Eles não precisavam inventar um estilo artístico; bastava esculpir uma imagem espelhada do busto diretamente em blocos circulares de ferro ou bronze endurecido.

O sistema monetário garantia uma uniformidade impressionante, embora pequenas variações regionais ainda ocorressem. As peças batidas nas principais oficinas imperiais, como Lugduno na Gália e a própria casa da moeda de Roma, seguiam com rigor o padrão clássico refinado, com gravações delicadas e precisas.

Nas províncias orientais, onde hoje ficam a Turquia e a Síria, os gravadores formados na tradição grega costumavam dar a Augusto feições mais suaves, divinizadas e ligeiramente mais régias, em sintonia com a antiga tradição monetária helenística. Por outro lado, pequenas oficinas ocidentais na Hispânia produziam retratos mais rústicos e angulosos, com traços firmes e queixos mais pesados. Contudo, apesar dessas diferenças de estilo, a identidade central nunca se perdia: Augusto era sempre jovem, sereno e inconfundível.

Trabalhando a partir de modelos oficiais, os gravadores mantiveram a unidade visual em várias regiões importantes:

  • A principal oficina imperial em Lugduno produzia os tipos mais equilibrados e elegantes do império.
  • As oficinas gregas no Oriente destacavam traços mais suaves e radiantes, semelhantes aos reis helenísticos.
  • Os entrepostos militares no Ocidente gravavam perfis mais marcantes e austeros, que transmitiam firmeza aos legionários.

A mensagem de paz duradoura para uma população traumatizada

A mensagem de paz duradoura para uma população traumatizada
Ilustração do artigo · A mensagem de paz duradoura para uma população traumatizada

A decisão de manter Augusto eternamente jovem atendia às necessidades psicológicas de uma população esgotada pelas guerras civis. Os cidadãos romanos que acolheram Augusto carregavam traumas profundos de décadas de conflito. Por mais de meio século, o mundo romano suportou proscrições sangrentas, confisco de terras, paralisia no comércio e o espetáculo terrível de legiões romanas massacrando umas às outras em solo itálico. Pais lutaram contra filhos, e o tecido social do Mediterrâneo esteve à beira do colapso.

Augusto construiu sua liderança em torno de uma ideia cativante: a Pax Augusta, a Paz Augustana. Sob seu comando, os portões do templo de Jano — fechados apenas quando Roma estava em paz absoluta — foram cerrados três vezes, algo que havia acontecido somente duas vezes em toda a história de setecentos anos da cidade. Ele anunciou a chegada de uma nova Era de Ouro, celebrada nos grandiosos Ludi Saeculares (Jogos Seculares) de 17 a.C., com poemas encomendados a Horácio.

Um imperador envelhecido era uma perspectiva apavorante para quem acreditava que a estabilidade dependia unicamente da vida de um homem. Se Augusto mostrasse sinais de declínio físico em suas moedas, lembraria a todos que sua vida tinha fim, reacendendo o temor de uma nova guerra civil sangrenta no instante de sua morte. Ao estampar uma face que nunca ganhava uma única ruga, o dinheiro imperial transmitia uma mentira tranquilizadora: o princeps viveria para sempre, e a paz que ele trouxe jamais terminaria.

A propaganda dinástica nos denários de prata

A propaganda dinástica nos denários de prata
Ilustração do artigo · A propaganda dinástica nos denários de prata

Por se apresentar sempre jovem, Augusto enfrentou um curioso dilema visual na hora de introduzir seus sucessores ao público. Com o passar dos anos, ele precisou preparar o mundo romano para uma transição pacífica de poder. Como não tinha filhos homens vivos, voltou suas atenções para os netos, Caio e Lúcio César, filhos de sua filha Júlia com o leal general Agripa.

Entre 2 a.C. e 4 d.C., a oficina de Lugduno cunhou milhões de denários de prata que estão entre as peças mais famosas da Antiguidade: o tipo de Caio e Lúcio. O anverso mostrava o busto intemporal de Augusto, ainda com aparência de trinta anos. O reverso trazia os dois jovens irmãos lado a lado, vestidos com togas, apoiando as mãos sobre escudos e lanças cerimoniais oferecidos pela ordem equestre, com instrumentos sacerdotais sagrados entre suas cabeças.

O efeito visual era curioso: o avô no anverso parecia ter quase a mesma idade de seus netos adolescentes no reverso. A moeda não pretendia ser uma árvore genealógica realista. Tratava-se de uma declaração visual explícita sobre o futuro do império. Ela dizia ao soldado e ao comerciante que a juventude divina de Augusto não era um milagre isolado, mas uma virtude de família transmitida à geração seguinte para garantir estabilidade contínua. Quando os dois rapazes morreram tragicamente por volta dos vinte anos, arruinando os planos de sucessão, essas moedas permaneceram em circulação como lembretes da fragilidade dos mais cuidadosos projetos dinásticos.

A adaptação do rosto do imperador nas províncias

A adaptação do rosto do imperador nas províncias
Ilustração do artigo · A adaptação do rosto do imperador nas províncias

Além das moedas de ouro e prata produzidas sob supervisão imperial, centenas de cidades autônomas em todo o império emitiam suas próprias peças locais de bronze para as trocas do dia a dia. Essas emissões provinciais revelam como culturas diferentes interpretavam a imagem do governante sem idade. Em Roma, Augusto tomava o cuidado de não aceitar ser adorado abertamente como um deus vivo, para não ofender a classe senatorial. Nas províncias, contudo, sobretudo no Oriente grego, o culto aos governantes já era um costume de muitos séculos.

Em cidades como Éfeso, Pérgamo e Antioquia, o retrato monetário sem idade ganhou traços abertamente divinos. Gravadores locais costumavam retratar Augusto com uma coroa radiada — com pontas que imitavam os raios do deus solar Apolo — ou colocavam seu busto ao lado de personificações do Senado, da própria cidade ou de divindades protetoras locais. Enquanto as oficinas ocidentais preferiam legendas contidas como Augustus Divi Filius ('Augusto, Filho do Divino [Júlio César]'), as moedas de bronze do Oriente o chamavam abertamente de Theos Sebastos — 'Deus Augusto'.

Nessas emissões provinciais, a juventude eterna do imperador parecia natural para a população local. Deuses não envelheciam; divindades como Apolo, Hermes e Dioniso não tinham rugas nem calvície. Ao manter um semblante jovem e perfeito em suas moedas, Augusto oferecia uma imagem perfeitamente alinhada às tradições religiosas das províncias. Ele se tornava o protetor das cidades, a garantia de boas colheitas e a encarnação terrestre da ordem cósmica.

O destino da imagem imperial após a morte de Augusto

O destino da imagem imperial após a morte de Augusto
Ilustração do artigo · O destino da imagem imperial após a morte de Augusto

Quando Augusto finalmente faleceu em Nola, em agosto de 14 d.C., aos setenta e cinco anos, o Império Romano conteve a respiração. O momento de fragilidade que o regime passara quatro décadas tentando ocultar havia chegado. As legiões se rebelariam? As guerras civis voltariam? Graças, em grande parte, à cuidadosa preparação política e visual mantida por Augusto, a passagem de comando para seu enteado Tibério ocorreu sem abalar as estruturas imperiais.

Logo após a morte, o Senado deificou formalmente Augusto. Ele já não era apenas Divi Filius (filho de um deus); passara a ser Divus Augustus — o Divino Augusto. Em uma decisão numismática expressiva, Tibério não retirou a imagem de seu padrasto de circulação. Ao contrário: mandou cunhar grandes quantidades de moedas de bronze e prata com o retrato do deificado Augusto, agora coroado sem disfarces com raios divinos ou com a coroa cívica de carvalho.

O dado essencial é que, nessas moedas póstumas, Augusto mantinha a mesma idade exibida nos quarenta anos anteriores. A morte apenas confirmou o que as moedas sempre sugeriram: aquele homem não estava sujeito ao desgaste natural do corpo humano. Décadas depois, sucessores como Calígula, Cláudio e Nero continuaram a emitir moedas com o perfil jovem do fundador do império. Sempre que a legitimidade de um novo imperador fraquejava, cunhar uma moeda com o rosto imutável de Augusto era o caminho mais rápido para lembrar aos cidadãos que o poder vigente se apoiava na paz duradoura do primeiro princeps.

O legado duradouro da imagem de Augusto

O legado duradouro da imagem de Augusto
Ilustração do artigo · O legado duradouro da imagem de Augusto

A decisão de congelar o retrato de Augusto nas moedas romanas estabeleceu um padrão que influenciou toda a história do Ocidente. Antes dele, os retratos de líderes eram ou extremamente realistas ou puramente mitológicos. Augusto uniu as duas linguagens, criando uma terceira via: o retrato oficial idealizado, no qual autoridade, juventude e projeto político se fundiam em uma identidade visual coesa.

Os imperadores seguintes precisaram decidir como se posicionar diante desse padrão augustano. Alguns, como Nero, preferiram expor o próprio envelhecimento nas moedas, começando como jovens magros e tornando-se homens de pescoço largo e queixo pesado. Outros, como Vespasiano após a caótica guerra civil de 69 d.C., retomaram o verismo austero e enrugado da República para demonstrar que eram comandantes práticos e experientes, não aristocratas vaidosos. Ainda assim, o modelo de Augusto — sereno, clássico e eternamente resoluto — continuou sendo a grande referência à qual o poder sempre retornava.

Hoje, um denário de prata de Augusto com dois mil anos de idade revela o extremo cuidado do Estado romano na construção de sua imagem pública. Aquele rosto liso e jovem tinha a missão de convencer um mundo exausto pela guerra de que a paz conquistada era duradoura, de que as instituições estavam firmes e de que o líder no comando de Roma era tão resistente quanto a prata e o ouro que exibiam seu nome.

Fontes e outras leituras

Explore o tema com estas referências.

The British Museum: Coins of the Roman Empire in the British Museum (BMCRE)Referência externa · Abre em uma nova aba Coinage and History of the Roman Empire (David L. Vagi)Referência externa · Abre em uma nova aba Roman Imperial Coinage (RIC), Volume I: From 31 BC to AD 69 (C.H.V. Sutherland)Referência externa · Abre em uma nova aba
Imperador Augusto Obrigado pela leitura atenta.
CA
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Coinage Archive

Redação Coinage Archive. Descobrindo a história escondida no dinheiro do dia a dia.